A necessidade da escuta terapêutica

O olhar histórico para com as pessoas que eram acometidas de transtornos mentais e quais os impactos no tratamento para melhoria do acometido na época em questão


Em 2009, Daniela estava fazendo uma matéria para um jornal e entrevistou um psiquiatra que, depois, tornou-se secretário de saúde da cidade dela. Esse médico retirou da gaveta um livro, que foi editado em 2008 pelo governo do estado. Nele havia parte das fotografias feitas por Luiz Alfredo, fotógrafo da revista O Cruzeiro que, em 1961, fez fotos do Colônia. Ela ficou muito impactada e, comparando com a situação da guerra, nomeou de Holocausto Brasileiro.

Emergiu duas vezes a denúncia com jornalistas diferentes. Uma reportagem da revista O Cruzeiro e outra por Hiram Firmino do Estado de Minas.


Nessa ocasião não eram utilizados os critérios médicos para internação. “Indesejáveis sociais” eram encaminhados para o Hospital Colônia de Barbacena quando seu comportamento não era aceito, ou porque causavam constrangimento sentido por alguém que tinha poder de decisão, ou por contrariar o que era considerado normal pelo grupo social daquela geração.


As denúncias desse atraso, do abuso de poder associado à maldade e ao desconhecimento de como um tratamento poderia ser, causavam indignação muito maior do que a ação que o conhecimento social poderia alavancar para a obtenção de mudanças reais. A própria Daniela diz que, apesar de os jornalistas já terem tornado pública a situação, a dificuldade que ela teve para conseguir “presentear a humanidade com as reportagens embrulhadas para presente” foi grande. Seu trabalho, por sua vez, trouxe relatos vividos pelos protagonistas das histórias. Com os documentados da época, conseguidos sob a sua coordenação, pôde registrar em livro tudo aquilo que fazia parte da situação.


Mesmo em uma época em que a loucura não era conhecida, a ação da Daniela mostra que o poder de transformar a vida das pessoas requer mais que só tornar as informações públicas. Na época, ainda era difícil fazer a avaliação. Levava-se em consideração que o transtorno mental era balizado pelo incômodo que essa pessoa em questão causava à família ou à sociedade.


“Então, por que aqueles que trabalham no front da assistência em saúde mental continuam se deparando com casos sem saída, de pacientes abandonados pela família nos leitos, agora do hospital geral?” Podemos pensar que a família adoece junto e que é preciso tratar o doente e orientar a família para lidar com ele, no momento em que reúne maior dificuldade em suas crises. Em cada época, de acordo com a evolução social, são estabelecidos modelos com diferentes graus de complexidade. É dever social, de cada cidadão que exerce função dentro deste processo, conhecer bem esse modelo estabelecido. A evolução da neurociência, os métodos de tratamento disponíveis, devem ter equidade de importância no processo como um todo. É esperado que os gestores de cada núcleo de atendimento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), por exemplo, percebam a necessidade de sua eficiência. Essa necessidade foi mostrada pela Susette Matos da Silva em seu trabalho de pesquisa: "A clínica da histeria no CAPS: escutar o cliente entre outros procedimentos médicos." Essa pesquisa também valoriza a escuta do cliente, assim como a ação da Daniela descrita acima.


Podemos falar em psicoterapia analítica, nos mesmos aspectos em que falamos em análise, apesar da disposição ser diferente. A importância do funcionamento intrapsíquico inclui a dimensão interpessoal e os artigos voltados para o enquadre terapêutico que valoriza a dinâmica da contra transferência. Em uma das instituições CAPS, Susette seguiu o atendimento e a necessidade da cliente que chamou de Rosa. Apesar de ser reconhecida a necessidade da cliente e de ter sido encaminhada para atendimento psicológico individual pela equipe médica, isso não acontecia pela falta do psicólogo na instituição. Em sua pesquisa, observou que: ”A expressão – escuta, realmente era muito utilizada no discurso da equipe, demonstrando a influência da psicanálise neste campo, porém esta não passava de um ritornelo no CAPS, de um encaminhamento cuja implicação clínica era bastante restrita, em geral correspondendo a falas de cunho moral e/ou educativo, numa lógica do fazer, já que as dimensões subjetivas passavam ao largo das intervenções da equipe”. Rosa tinha um comportamento que ocupava muito os técnicos. Conforme os ensinamentos da psicanálise, consequências importantes podem se dar, não pela falta, mas pela ―falta da falta. Era a palavra de Rosinha que não era levada a sério. Susette observava que, após registros minuciosos acerca dos comportamentos impulsivos e conduta pueril da paciente, há sempre referências do tipo: “tal profissional ―conversou ou outro ―aconselhou, no que a observação de uma técnica certa vez: ―A usuária mostra grande demanda de atenção e escuta”. De certa forma, se ela era impedida de verbalizar, seu comportamento era uma atuação. A presença de um conflito com uma sobrecarga de energia que não é compreendida, ou sua representação, não permite o escoamento de energia intolerável. Essa energia se transforma, criando o sofrimento, por exemplo, do corpo. É uma das três formas de adoecer e está na base das Neuroses que depende do resultado final do conflito. Pertence, ou ao pensamento, ou ao mundo externo, ou ao corpo (compulsões, fobias, histerias). Adoecer não é uma boa saída. O sintoma é apenas um sinal que continua com excesso de energia e desaparece quando é simbolizado com a escuta psicanalítica.

Bibliografia:

- https://tvcultura.com.br/videos/35413_livros-63-holocausto-brasileiro-daniela-arbex.html.

- “Por dentro dos muros, por dentro das coisas” de Silvana A. T. Ferreira.

- A reforma psiquiátrica no SUS e a luta por uma sociedade sem manicômios universidade federal do Pará, instituto de filosofia e ciências humanas programa de pós-graduação em psicologia Susette Matos da Silva.

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