Depressão reativa

Eliara tem 41 anos e o marido, 44, com um casal de filhos: o rapaz 18 e a menina 14. Mudaram-se, há dois anos, de outra cidade para esta onde residem atualmente. A mulher procurou o terapeuta, porque não conseguia readaptar-se à vida que tem agora. Na cidade onde residiam, no interior do país, sentia-se melhor. Fazia um curso de desenho artístico e industrial. Não pôde terminá-lo pela necessidade de transferir-se, acompanhando o marido, e se sente frustrada com isto. Ele viaja, regularmente, alguns dias da semana e, pela atividade que exerce agora, obteve melhor situação financeira. Diz Eliara que emagreceu muito, dorme mal, e nem o fato de ter iniciado pequena casa de comércio de artigos femininos, com alguma independência financeira, lhe dá maior entusiasmo. Achando que não tinha paciência para submeter-se a uma psicanálise clássica, preferiu tentar uma psicoterapia intensiva breve.

A primeira entrevista não foi além de meia hora. Depois de algumas informações introdutórias, foi levada à indução de um transe hipnótico mais ou menos profundo, segundo a disponibilidade do cliente, como veículo da psicoterapia, com grande facilidade. A indução se fez do seguinte modo: diante da cliente sentada com todo conforto, pus minha mão direita um pouco acima da testa da paciente, a palma voltada para o rosto, a alguns centímetros de distância do mesmo, com o polegar para baixo. Disse que os olhos se fixassem no meu dedo mínimo, o que obrigaria a um olhar incômodo, dirigido para cima. Baixando a mão devagar, os olhos vão seguindo o mesmo curso, com a natural tendência de as pálpebras cerrarem, o que era reforçado com palavras: "... e os olhos podem fechar-se comodamente... sem nenhum esforço... pode respirar profunda e agradavelmente..." Depois disto, acrescentei: "Eu vou contar de um a cinco. Você poderá ver, como numa tela de cinema antigo, os números que aparecem... um depois do outro... às vezes, até de pernas para o ar. À medida em que for chegando ao cinco, seus olhos se tornarão ainda mais pesados... o corpo relaxa mais ainda... e é como uma espécie de sono agradável... mas, na verdade, não vai dormir... é apenas como um descanso profundo... como se fosse durante o sono..." Eliara correspondeu plenamente. Foi-lhe sugerido que podia permitir-se sentir-se bem, ao seu modo, naquele momento. Passados alguns minutos, disse-lhe que eu contaria de cinco a zero e que, então, seus olhos se abririam calmamente, conservando ela o bem-estar que estivesse sentindo. Feito isto, Eliara desperta, sem maiores comentários, a não ser a confirmação de que estava mais tranquila  Foi acertado o início da terapia, propriamente dita, para três dias mais tarde. Não se empregariam mais de quatro horas e meia, em quatro sessões, sendo a terceira, de hora-e-meia de duração, com toda a família  A paciente afirmara que, tanto o marido como os filhos, se convidados, compareceriam na certa.

Eliara veio, pontualmente, no dia marcado para a primeira sessão individual. Informou, de imediato, que, em casa, nesses dias, fora capaz de “pensar em muita coisa que, há tempo, não vinha conseguindo”. Induzido o transe hipnótico, foi solicitada a recordar, por faixas de idade, regressivamente, dos quarenta aos trinta anos, dos trinta aos vinte e cinco ou vinte, destes aos dezoito ou quinze, aos doze ou dez, aos oito ou cinco anos, ou, quem sabe, ainda menos “fatos possivelmente esquecidos há muito, mas importantes na época em que se deram e, realmente, agradáveis”. Eliara verbalizou diferentes episódios, até do que poderia ter sido alguma brincadeira infantil, mas acrescentou que não recordava nada que pudesse adjetivar como realmente gratificante, prazeroso, durante toda a infância, adolescência, até a mocidade. Já de olhos abertos, pouco depois, fez comentários sobre o “tempo feliz” que tivera, por volta dos 17 e 18 anos, no internato de um educandário, onde era tratada de maneira adulta, sem recriminações, com carinho, e que recebia, satisfeita, a visita do pai, com certa regularidade. O terapeuta obtemperou, então, que, segundo as próprias palavras da cliente, pelo menos dois anos da vida dela haviam sido felizes, em plena contradição ao que afirmara antes, de que, tanto a infância quanto a adolescência não continham nada de que pudesse alegrar-se. A sessão durou uma hora.

Na vez seguinte, nada mais foi feito que reexaminar num diálogo e, depois, reforçar, principalmente em hipnose, os conteúdos da hora anterior. Eliara falou sobre o acordo, com os filhos e o marido, de comparecerem, de bom grado e curiosos, à próxima sessão, que seria de família.

No dia fixado, os quatro partícipes chegaram e acomodaram-se com naturalidade. A primeira pergunta do terapeuta foi aos dois filhos a indagar-lhes se estavam ali, mais ou menos arrastados pela mãe ou era o prestígio dela que os havia trazido. Afirmaram que esta última hipótese era a verdadeira. Eliara emendou certificando que reinava bastante camaradagem entre eles, sendo o comportamento de todos a tal ponto descontraído que jamais se fechava a porta do banheiro. Qualquer um podia entrar, sempre, indiferentemente, não importando quem ocupasse o chuveiro ou o vaso sanitário. Este ponto acabou se tornando foco importante de alguns comentários. O terapeuta perguntou que é que os dois adolescentes, de fato, pensavam e sentiam disso. Discorreu-se que, por exemplo, no Japão e onde seja tradição o banho familiar ritual, ou onde houver outros comportamentos aceitos socialmente, como os banhos públicos ao nu, haveria certa naturalidade que inexiste noutros meios onde os costumes são outros. O homem é um ser cultural. A criança não deixará de sentir e registrar, seja as concordâncias, seja os antagonismos entre os hábitos da casa e os dos demais grupos familiares com quem convive e dos quais, recebe informações naturalmente transmitidas de muitas formas, espontaneamente. Um tanto contrafeitos, os dois jovens disseram que, no fundo, não gostavam daquilo, para enorme surpresa da mãe. Mais observações foram tecidas quanto à privacidade de cada um. O rapaz ou a menina que se desenvolve deseja reserva de espaço próprio sem invasões alheias. São importantes os usos e costumes na formação do supereu, que também tem de levar em conta a disposição pessoal do sujeito, seus juízos de valor que, a certa altura da formação do indivíduo, se desligam dos da família e assumem forma pessoal. Um tanto despeitada, Eliara declarou, peremptoriamente, que, ela mesma, daquele momento em diante, mudaria de conduta, em definitivo.

Outros temas corriqueiros foram abordados e serviram para útil troca de idéias entre marido, mulher e filhos que, de resto, vivem muito amistosamente. O pai, de modo geral, foi mais circunspecto, por temperamento e, mesmo, porque, pelas ausências semanais obrigatórias, está menos vinculado ao curso dos fatos e menos informado sobre os mesmos. Esgotado o tempo previsto, encerrou-se o encontro.

Eliara, na quarta e última sessão, de imediato, comentou o surpreendente, para ela, do pensamento desabonatório dos filhos, com referência ao quarto de banho sem porta fechada, contra aquilo que ela e o marido sempre haviam julgado como educação para a liberdade, prática de idéias arejadas, ausência de repressões desnecessárias. Fez alguns instantes de silêncio e trouxe, a seguir, antiga lembrança respeitante à filha. Esta, certa vez, pelos três ou quatro anos, tomando banho junto com o pai, postou-se bem na frente dele, de pé, a observar-lhe os genitais, atenta e longamente, sem desviar os olhos e deixando o homem muito incomodado mas sem querer demonstrá-lo. A cena prolongou-se por uns dez minutos e, daí em diante, concluiu a mãe, nunca mais a menina deixou o pai entrar no quarto dela. Ainda um pouco na defensiva a respeito das portas abertas, mas com alguma tonalidade triunfante na voz, Eliara disse que, firme e inabalável no propósito expresso na sessão anterior, ouviu, o filho, já no dia seguinte, reclamar que queria retirar algo do quarto de banho enquanto ela o ocupava. "Aguente, agora, aprenda a esperar", foi a resposta que deu. Na verdade, o filho é quem mais contradissera a mãe, defendendo território próprio indevassável, em contrário às idéias dela. As ponderações finais decorreram sobre o bom resultado obtido, a satisfação, de modo geral, das horas da terapia, não obstante a discordância dos pontos de vista pessoais ocorridos na sessão familiar. As conclusão, em todos os sentidos, eram positivas. Em poucas semanas, a paciente mudou de aspecto. A magreza excessiva desapareceu. Trabalhava com prazer e a vida melhorara.

Comentário



Não é possível dizer, com certeza, o que fora conscientizado por Eliara a partir da meia hora de entrevista, com a primeira indução hipnótica feita antes do início da terapia. Talvez, com raízes distantes, na satisfação experimentada pela adolescente nas visitas do pai, quando no internato, havia certa sedução, agora como que manifestada em família, sob a capa das ótimas intenções de derrubar tabus, mas resultando em ausência de algumas fronteiras que os filhos pareciam estar sentindo como imprescindíveis. O conjunto leva a supor a existência de elementos edipianos flutuantes e perturbadores para todos, acaso facilmente ajustáveis, ao menos para as necessidades e condições do momento presente. Pode opinar-se que os sintomas atuais da paciente correspondessem a uma crise de reação depressiva, acompanhada de angústia. A transferência, que nasce desde o momento em que a escolha do terapeuta se define, evoluiu em sentido positivo claro, desde o instante em que Eliara conseguiu “pensar o que, há muito, não conseguia”, inclusive os bons momentos da adolescência, esquecidos. Não teria sido incomum que ela, no internato, sentisse, como “injustiça”, ter de ficar distante de casa, por motivo dos estudos. Ao lado disto, o prazer ambivalente de ser visitada pelo pai, no internato, algo não comum no caso das demais colegas.

Com frequência, podem ocorrer conscientizações do cliente, de todo inesperadas, que se facilitam pela simples entrada em transe. Podem comparar-se a sementes que jazem no solo fértil  à espera de uma leve chuva e um pouco de sol, prontas para germinar e aparecer à superfície. O terapeuta, ainda que, até então, pessoalmente desconhecido de Eliara, era tido, como “digno de confiança e crédito”, por informações dadas. As perspectives, no referente à duração da terapia e aos honorários, estavam dentro das previsões da cliente. Sua psicoterapia, enfim, decorreu segundo a expectativa, a iniciar pela aceitação dos seus termos, em linhas gerais, por parte do terapeuta. Estes fatores teceram o pano da transferência adequada, suporte do que deveria ser examinado e trabalhado para o sucesso colhido. A proposta de uma sessão familiar foi importante. "O que acontece dentro de mim, acaba acontecendo dentro de casa. O que acontece dentro de casa, acaba acontecendo dentro de mim". Merece atenção o episódio entre a menina, pelos três ou quatro anos, e o pai, no banho. O bom resultado da psicoterapia de Eliara persistiu por mais de um ano. Passaram a diminuir cerca de seis meses depois. Não houve maior possibilidade de notícias a respeito. - Assim como a abordagem médica ou odontológica periódica, oportuna para o cliente, seria desejável que a psicoterapêutica também o fosse.

De modo geral, nenhum tratamento é perpétuo em cada um dos seus bons efeitos. Mais importante, ainda, é ter em conta que os sintomas, de qualquer natureza, se originam de fatores causais múltiplos, em geral inacessíveis à descoberta repentina completa. As raízes profundas de todos, sem exceção, vêm de época muito anterior ao tempo em se manifestam. Na clínica medica, há desconfortos que se repetem, de modo igual ou parecido, em períodos sucessivos imprevisíveis, e tratar cada um, a seu tempo, é questão de bom senso responsável.





Malomar Lund Edelweiss

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