Desistência de Terapia

João se aproxima do fim da quadra dos trinta anos. Escolaridade: primeiro ciclo secundário incompleto. Relativamente primitivo, de origem pobre, distinguiu-se como empresário e é bem aceito pela sociedade da classe média alta na cidade onde vive. Tem bom vocabulário e facilidade verbal. Por indicação de um amigo, procurou o terapeuta para que fizesse, com este, uma 'regressão'. Sente-se tenso, ansioso, o que interfere no relacionamento com todos, desde as pessoas da família até os parceiros de negócios.
 

Feita a introdução geral que uso ao início de qualquer psicoterapia, à pergunta sobre se havia sonhado, nestes últimos dias, relatou que 'não sonha nunca' mas que, à noite do dia em que marcara a consulta por telefone, sonhou: “Numa parte do sonho, ele estava cantando muito bem, com facilidade e satisfação. Noutra, apareceu-lhe o rosto do Mahatma Ghandi, com quem muito simpatiza e a quem admira. Mas o Ghandi do sonho era um “Ghandi às avessas”, de aspecto horrível, insuportável”. Quanto ao relaxamento que lhe foi proposto com o objetivo de entrar em transe, disse que não o consegue. Quando coloca, para ouvir, alguma fita cassete própria para relaxar, não aguenta. Quase de imediato, sente necessidade de levantar-se e ir embora. Apesar desta afirmativa, o terapeuta lhe propôs fazer um pequeno teste de relaxamento, sem haver obrigação de conseguir coisa nenhuma, só para ver como seria. A seqüência foi a que uso na grande maioria das vezes, a começar pelos pés e a terminar pela cabeça, ou mais exatamente, pelo couro cabeludo. Foi muito nítido o fato de que, após a indicação de relaxamento das pantorrilhas, ao respirar o terapeuta profundamente - de propósito, como sugestão não-verbal implícita para que João fizesse o mesmo, sem nada ser-lhe dito neste sentido - o cliente, após leve hesitação, imitou, em cheio, o ato. Revela isto que, sejam quais forem as demais circunstâncias, já se estabeleceu vínculo significativo importante entre o terapeuta e o cliente, e que manifesta, da parte deste, certo grau de aceite e concordância com a situação e seu contexto. Ao fim do roteiro verbal de relaxamento, à minha pergunta costumeira de “como se sente agora”, João moveu o lábios de modo indeciso, lento, sem conseguir articular nenhum som, malgrado o visível esforço para consegui-lo. Por três vezes, tive de encorajá-lo e insistir que os músculos da garganta poderiam contrair-se o suficiente para expressar o que queria. Disse ele, então, que não lhe tinha sido possível “relaxar a cabeça, só até a garganta e a língua”. Valorizei, honestamente, o fato, recordando que, nas palavras de há pouco, João havia afirmado que nunca era capaz de relaxar, nem ouvindo uma gravação, das que possuía  com essa finalidade. Agora, havia conseguido ir até o ponto que acabara de dizer. Nada impediria que este relaxamento continuasse tal qual, ou que pudesse, até, desenvolver-se mais ainda, sem que isto fosse, no entanto, absolutamente necessário pois já fizera grande progresso. Continuei a pauta habitual de indução, da maneira como sempre o faço, promovendo o condicionamento da saída e reentrada em hipnose pela contagem de cinco a zero (para abrir os olhos) e de um a cinco (para voltar a fechá-los). No breve intervalo de abertura dos olhos, como se nada houvera sido dito sobre 'não ter relaxado', ao interrogar eu: “E agora, como se sente?”, recebi a informação: “Relaxei um pouco mais!” Sem qualquer ênfase particular, foi observado que, de modo natural, o progresso continuara e João podia estar satisfeito com isto.

Tendo ele voltado a fechar os olhos, pela contagem de um a cinco, foi-lhe exposto o quanto o que estava realizando era uma aprendizagem. O que é de salientar, concorde com o alvo destas linhas, são as expressões do cliente à saída do transe: "Relaxei todo, até o meu cérebro esquerdo, mas o meu cérebro direito, não relaxou...!" Foi redarguido: "Você está me dizendo, de maneira simbólica, que você relaxou inteiramente, até o rosto e a metade esquerda do couro cabeludo, menos o do lado direito da sua cabeça... Ótimo... Você está vendo de quanto você é capaz, o que é muito importante!" Colocado, novamente, em hipnose, foi aproveitada a oportunidade para fortalecer o pensamento de que o conteúdo dos sonhos poderia vir a ser elaborado, ainda mais, no futuro, ao nível inconsciente. Viriam mais coisas importantes assim como estas que estavam sendo trazidas por ele até o momento.

Posto João, novamente, em transe, foi-lhe sugerido a “ter um sonho, agora, aqui”, pouco importando o que fosse. Veio-lhe o seguinte: "Estou à beira de um lago. É escuro, assim como tudo ao seu redor. O próprio céu é carregado de nuvens, como de uma tempestade". O sonho figurava um situação desagradável, representando o que o paciente vivia nos dias presentes. Foi-lhe pedido que, se possível, tentasse continuar o sonho, a partir da cena onde havia parado. João, ao continuar o sonho, muito vagarosamente, foi descrevendo: "O céu está clareando... as nuvens estão indo embora... o lago também está ficando mais claro... A tempestade que ia desabar parece que está se afastando... o tempo está ficando bom". Foi, brevemente, explicado ao cliente, o valor prospectivo dos sonhos, um como que apontar para o futuro, e, diante do que acabava de dizer, o que isto poderia significar de mudanças positivas na vida dele. - Depois de cerca de hora e meia de entrevista, João deixou marcada a sessão seguinte para três dias depois. Na véspera, desmarcou e nunca mais foi visto.

Comentário.
 

Na anamnese, João falara das muitas dificuldades que estava tendo, no lar, nos negócios que empreendia e no relacionamento com os parentes e amigos em geral. Em hipótese, ele poderia ter-se sentido “ameaçado” por uma eventual melhora do estado psicológico, perdendo, com isto, os ganhos secundários dos sintomas, pois viera acompanhado da mulher e de um irmão em quem se apoiava ultimamente, e que estava tomando conta dos negócios. A ajuda de ambos, sem dúvida, lhe era muito bem-vinda, francamente aceita, gratificante. Esse “ganho secundário das sintomas” foi uma das surpresas de Sigmund Freud, nos primeiros tempos da psicanálise, ao descobrir que, não raro, os “doentes nervosos” que o procuravam tinham, no fundo da mente, motivações desconhecidas, poderosas e contrárias ao que falavam, com sinceridade espontânea, sobre o desejo de curar-se: a “doença” os havia tornado merecedores especiais de atenções e regalias da parte da família e de pessoas do meio em que viviam. No fundo da mente, poderia não valer a pena melhorar.

Pelo tempo desta primeira entrevista, não foi possível desvendar a natureza do estado depressivo do cliente. Em todo caso clínico, segundo Freud, encontram-se as “series complementares” ou fatores que se acumulam sequencialmente e geram o modo próprio de comportamento de cada indivíduo:
- a constituição hereditária, que são as disposições inatas transmitidas pelos pais;
- as vivências infantis, normais ou desajustadas, dos primeiros anos de vida;
- os conflitos atuais, resultantes da ação dos fatores negativos precedentes; e um
- elemento desencadeador, que pode ser um evento qualquer comparável ao golpe que faz explodir a carga de uma arma de fogo. Quanto mais carregada a predisposição patológica inata, tanto mais fácil que algum desajuste psicossomático, mesmo de pouca monta, nas vivências infantis subsequentes, provoque traumas significativos causados por algo que seria de pouco ou nenhum efeito sobre outra pessoa.

O sonho, durante o transe hipnótico, em psicoterapias, tem valor equiparável ao do sono fisiológico. O de João poderia ser interpretado como um sinal de capacidade, ao menos relativa, de superar a tempestade existencial em que se encontrava, pois todo o cenário apresentou transformação: “a tempestade estava se afastando, o tempo estava ficando bom”. Sem outros dados complementares mais claros, é impossível distinguir o que predominava no sonho: o ser antecipador de algo que, com o tempo suficiente de terapia, teria condições de ser alcançado, ou não ser nada mais que a simples realização simbólica de um desejo de cura.

O fato de o cliente residir noutra cidade, relativamente distante, para continuar a psicoterapia, é um complicador que, às vezes, a torna impraticável. A experiência confirma, no entanto, o bom resultado obtido com pessoas que, pelas obrigações da vida real, só têm possibilidade de agendar as sessões com semanas de intervalo, uma da outra. Nestes casos, parece haver uma como que acomodação do efeito terapêutico às condições do cliente.

Enquanto, no caso clínico anterior, o problema que existia foi resolvido dentro das circunstâncias do momento, no presente caso nada se pode concluir além do fato de João ter experimentado alívio momentâneo daquilo que o afligia. Tampouco, nada pôde saber-se no respeitante à profundidade e a duração desse bem-estar. E, menos ainda, por que desistiu da psicoterapia, malgrado a demonstração comprovada de que tinha condições de melhorar psicossomaticamente.





Malomar Lund Edelweiss

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