Impotência sexual psicogênica

Teodoro completou trinta anos. É casado com uma mulher da mesma idade e tem com esta uma filhinha de dois. Procurou o terapeuta por indicação de um amigo e desejava tratamento que não fosse longo. É profissional liberal de uma especialidade cirúrgica, tendo seguido, neste ponto, a trilha do pai, e o local de trabalho de ambos é o mesmo. Morou com os genitores enquanto solteiro e logo depois de casado. Atualmente, reside no mesmo prédio, em apartamento fronteiro ao deles. A mãe de Teodoro é a secretaria do marido e do filho.

O paciente casou-se logo após a formatura e, quase a seguir, foi especializar-se em uma universidade diferente daquela em que se diplomara, e de muito boa fama no campo escolhido por Teodoro. Ao mesmo tempo, a mulher resolveu dedicar-se ao aperfeiçoamento das atividades que exercia, em outra cidade. Encontravam-se nos fins de semana. A impotência se revelara, benigna, já no início do matrimônio. Melhorara muito enquanto ambos estagiavam, época em que o marido ansiava pelo encontro hebdomadário com a mulher. Logo ao retornarem à cidade de origem, entretanto, a dificuldade sexual começou a manifestar-se com intensidade maior. A impotência não era absoluta nem contínua, mas foi-se agravando pouco a pouco. De modo geral, quando o cliente conseguia iniciar a cópula, tudo corria bem. Mas, cada vez com maior freqüência, a flacidez peniana se instalava ao simples aproximar-se da parceira, com evidente desagrado de ambos e, de modo especial, dele.

Houve duas sessões preliminares. Na primeira, o paciente narrou, em linhas gerais, os sintomas, a situação profissional, o convívio com a mulher e com a família de origem. O relacionamento com o pai foi declarado "ótimo". Ama a esposa e se dá bem com ela em todos os sentidos. Lamenta o que está acontecendo, pois ambos se frustram. O terapeuta, de começo, disse que, certamente, Teodoro já estava bem informado, pelos especialistas que procurara, de que, no caso de homem jovem como ele, a impotência ou é muito grave, de origem somática, e se detecta logo a causa do problema, ou é psicogênica. O paciente concordou com um meneio de cabeça. O terapeuta propôs que, visto estar o fator psicológico muito aliado à chamada tensão nervosa, Teodoro experimentasse sentir o quanto era capaz de "relaxar", sentado na cadeira, bem confortavelmente, e "deixando o corpo como que afundar-se nela". De modo surpreendente, como que automático, de imediato o cliente fixou o olhar no infinito, paralisado, em profundo sonambulismo. Só restou ao terapeuta dizer-lhe, de modo suave: “Pode fechar os olhos e respirar profundamente. Não se foi muito além nesta hora introdutória. Feitas algumas poucas sugestões: de "descontração muscular geral", "respirar à vontade, solta mente , "sentir-se bem" e "saborear o bem-estar que estava experimentando", o terapeuta acrescentou que, desse momento em diante, em toda situação legítima como a presente, Teodoro, com facilidade maior a cada vez que repetisse, seria capaz de reviver esta agradável sensação de bem-estar, de olhos cerrados, comodamente. Transcorrida uma hora, foi marcada nova entrevista para três dias mais tarde, porque o paciente viajaria de férias ao fim dessa semana. Ele se despediu apresentando o ar de quem se sentia aliviado e satisfeito.

Teodoro voltou no dia e hora marcada, pontualmente. Ao sentar-se, de imediato foi instruído a que, simplesmente, se dispusesse a repetir o que havia feito na sessão anterior, bastando, para isto, que se “acomodasse e largasse, ali, de modo confortável” tal qual fizera no primeiro dia. Prontamente, entrou em sonambulismo. O terapeuta, pausada e naturalmente, discorreu sobre o modo como todo menino e menina se desenvolvem quando crescem: o desdobrar e fortalecer do corpo; o aprender, desde caminhar até correr; dar-se a brinquedos em que o tronco e os membros se movimentam e robustecem; jogos e prática de esportes; além do que se registra e acumula, mentalmente, de aprendizagens úteis à vida futura. Ao início, são pequenas habilidades e, pouco a pouco, outras maiores, inclusive ler e escrever. A escola ensina desde as primeiras letras, por vezes difíceis à mãozinha da criança. Mas torna-se sempre mais fácil ler e escrever quanto mais se repete o exercício, cada vez melhor. Pela vida afora, muita coisa, além disto, vai se armazenando na mente, inclusive os conhecimentos e destrezas profissionais. As idéias da criança, à medida em que ela cresce, também se modificam, tornando-se mais objetivas e sólidas. Assim ocorria, certamente, com tudo o que era de pensar, inclusive com o sexo. As fantasias infantis davam lugar às representações corretas. O menino; como ele, ao mudar de estatura, também muda boa parte de seu pensamento e de suas emoções. Papai Noel e cegonha são substituídos pelos fatos reais. Casado, como era, entendia o relacionamento de marido e mulher muito diversamente do que imaginara, temerosa e secretamente, outrora, conversando com colegas de verdor imberbe e de ignorância, nos tempos da meninice. No entanto, em cada ser humano, podem subsistir resíduos infantis que, às vezes, lutam com as representações mentais adultas e até predominam sobre as elas. Mas são corrigíveis, intelectual e afetivamente. De certo, ele próprio já teria várias experiências neste sentido. Mesmo no futuro, seria bastante comum retificar, ainda, modos de pensar, sentir e agir. É natural e necessário que se faça. Seu inconsciente, durante os próximos dias de férias, repensaria e examinaria, devagar e tranquilamente, tudo quanto fora tratado nestas duas sessões iniciais, e a psicoterapia teria seu prosseguimento ao voltar. Alguns conceitos foram repetidos, de propósito, a seguir, depois de Teodoro ter aberto os olhos. Ele os escutou, atentamente, talvez porque os achasse parecidos com algo que, lá no fundo de si mesmo, de algum modo já sabia. Ao despedir-se, estampava-se em seu rosto uma expressão alegre.

Quinze dias passados, o cliente retornou e, à pergunta de como haviam decorrido as duas semanas de descanso, respondeu que "muito bem". "Assinara o ponto" todos os dias, sem dificuldade nem contratempo algum. - No correr de quatro semanas, houve mais três sessões, devido aos compromissos profissionais de Teodoro, com intervalos irregulares. Depois da primeira destas novas entrevistas, Teodoro narrou que pedira à esposa fizesse, para o almoço, um prato que ele muito apreciava. Ficou surpreso porque ela correspondeu afirmando, contente, que, pela primeira vez, ele fora capaz de manifestar um desejo de preferência pelo que quer que fosse. Até então, sempre "tudo estava muito bem" do jeito que se apresentasse, ainda que, no íntimo, se sentisse contrariado. - Em cada uma das sessões, houve a apresentação de um sonho com o mesmo tema, que se repetia: havia uma figura central e um ou mais interlocutores e, embora com alguns aspectos secundários variáveis, surgia, sempre, uma discussão acalorada entre a figura dominante e os demais. Num desses sonhos, a figura central era “um primo que brigava num bar, com outra pessoa mais idosa”. Sem parecer associar conscientemente, Teodoro declarou que mudara o comportamento para com os pais. Certo dia, chamou o genitor à parte e lhe disse que, daquele momento em diante, dividiriam os proventos do consultório de forma diversa do que estava acontecendo, pois, até ali, o filho apenas recebia cerca de vinte por cento das entradas, ficando o pai com o restante. Seria, agora, meio-a-meio. À mãe, que lhe marcava horários da clientela a qualquer tempo, sem preocupar-se com o incômodo das desoras, ordenou que não mais o fizesse sem combinar o que seria melhor na opinião dele. Numa das vezes em que o antigo modo se repetiu, depois da advertência, Teodoro simplesmente declarou que não aceitava a consulta anotada e que ela se arranjasse com o cliente para a modificação do horário. Naturalmente, os pais ficaram surpresos com as atitudes novas e inesperadas do filho mas, nas palavras deste, estavam aceitando-as. Em casa, com a mulher, Teodoro, depois do episódio da comida, apresentou mais algumas reivindicações, antes inconcebíveis da parte dele. O que pode dizer-se é que os comportamentos de antiga e habitual submissão infantil e imatura deram lugar a um comportamento mais adulto em setores outros que não o especificamente sexual, mas perfeitamente bem incluídos no que significa "deixar de ser criança" em todos os relacionamentos e nos modos de agir. Esses modos de comportar-se estão prefigurados nos sonhos de Teodoro. Em todos eles, existe a clara manifestação de "investir contra adversários", mais ou menos aberta e fortemente, com o habitual disfarce que o sonho faz das pessoas e dos acontecimentos.



Comentário

O estado de menoridade psicológica é ressaltado pela constante dependência do cliente, já com mulher e filha, ainda preso à vizinhança física, expressa na obrigatória proximidade da moradia. Note-se tudo ia muito bem ao jovem casal, quando s dois viviam distantes, por própria conta, longe dos pais. Sentiam-se, de fato, adultos autônomos, sem qualquer tutela. Teodoro, casado, morar na casa dos genitores, trabalhar no mesmo consultório e, sobre isto, ter de contentar-se com remuneração menor, era imposição cultivada de longa data e que mantinha o filho em estado de subordinação infantil. Sob certo aspecto, foi bom sinal, inevitável, e que podia ser esperado, que a "rebeldia" de Teodoro contra a antiga passividade surgisse na dinâmica transferencial. Inesperadamente, contra todo o desdobrar favorável da psicoterapia, que apontava para mais alguns aspectos de comportamento de Teodoro a serem melhorados, ele falou com o terapeuta, da vontade de eliminar algumas sessões previstas, alegando dificuldades financeiras. Na verdade, não era isto o que ocorria, mas nada foi dito contra. O mais importante era o paciente já estar usufruindo de suas potencialidades viris, não só na vida sexual mas na do seu dia a dia, tendo os antigos senões desaparecido por completo. Além disto, é concebível que se estivesse realçando, no psiquismo de Teodoro, alguma angústia inconsciente por "atrever-se" agora a enfrentar pai e mãe e, de certa maneira, afrontá-los com as novas atitudes de independência que assumira. Mais fácil era, pois, confrontar-se com o terapeuta. A psicoterapia desenvolveu-se em seis sessões.





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