Reconciliação de Pai e Filha

Fui solicitado a visitar um médico de meia-idade, excelente profissional da área cirúrgica, acamado em sua residência, devido à retirada de parte do estômago tomada de câncer  Apesar de haver-lhe sido dito que seu estado clínico era satisfatório, pois a cirurgia fora bem-sucedida, cada vez que ingeria algum alimento, este era vomitado pouco depois. Os colegas que o atendiam opinaram que o fato era de ordem psicológica e recomendaram uma ajuda psicoterapêutica. A sugestão fora aceita de bom grado pelo cliente que solicitou ser visitado em sua residência, onde estava acamado.
Depois de ter-me ele descrito a seqüência dos principais fatos do tratamento a que estava sendo submetido, foi hipnotizado com facilidade, chegando ao transe profundo, sonambúlico. Ao término deste, sugeri que, após minha saída, poderia alimentar-se de modo leve, como lhe apetecesse, quando quisesse. Tudo feito ao modo como havia sido proposto, a rejeição alimentar se repetiu tal como vinha acontecendo. O mau resultado da cirurgia tornava-se decepcionantemente claro.

Um dos pesares que mais afligia o enfermo, agravado pelo estado de saúde, era o que estava ocorrendo por parte da filha de dezoito anos, que evitava a proximidade do pai em qualquer circunstância. Onde ele estivesse, ela não entrava. Onde ela estivesse, se o pai entrasse, ela se retirava de imediato.
 

Propus, e a jovem aceitou, uma sessão de hipnoterapia, logo a seguir, em minha casa, pois era domingo. Sem questionamento do que estava acontecendo entre ela e o pai, nem delongas sobre o que quer que fosse, comentei sobre a importância dos sonhos em geral, como algo vivido no âmago do nosso inconsciente e trazido, de modo mais ou menos cifrado, ao campo da nossa consciência como uma mensagem que pode ser entendida, na maioria das vezes, com algum empenho nosso, para nosso proveito. À minha pergunta se lembrava ter sonhado, quem sabe, à noite anterior, ou antes – e ela só falasse o que, deveras, quisesse – respondeu afirmativamente e narrou o que recordara ao despertar pela manhã desse mesmo domingo.

O sonho:
Estava em casa, sozinha, e recebeu um telefonema da mãe que se achava, naquele momento, num supermercado da cidade a fazer compras, e tinha nas mãos um pão que queria entregar à filha. A mãe pedia que esta tomasse o carro e fosse buscar o pão que ela, mãe, queria entregar-lhe. A filha, ainda com certo receio de dirigir automóvel, pois recebera a carteira de habilitação de motorista há pouco tempo, conseguiu, com prudência, tirar o veículo da garagem. Enfrentou o trânsito denso. Em certo ponto da estrada, havia uma curva difícil, vencida com habilidade, e chegou, enfim, sem contratempo, ao lugar onde estava a mãe que lhe entregou o pão.

Colocada a relaxar numa cadeira de braços, com apoio confortável para a cabeça, propus que respirasse fundo duas ou três vezes e se “deixasse ir para qualquer lugar agradável” ao seu gosto. Com facilidade, entrou em sonambulismo. Com voz branda, lenta, frisei: o ânimo sereno com que ela conseguira pôr o carro em movimento… sair da garagem com segurança… dirigi-lo… com habilidade… pelo trânsito pesado… vencer a curva difícil com perícia… alcançar a mãe… como esta lhe pedira… e receber dela o pão que lhe foi entregue...

Passados alguns dias, recebi a notícia de que, após a sessão de hipnoterapia, mais ou menos uma hora depois de ter voltado à casa, a jovem se dirigiu ao quarto do pai. Os circunstantes se retiraram. A filha abraçou-o carinhosamente e pediu-lhe perdão pelo comportamento que estava tendo para com ele. Os dois choraram. Ela estava de ferias e passou ao lado do pai a maior parte dos dias seguintes. Uma semana mais tarde, o médico foi hospitalizado de urgência. Faleceu três dias depois, com a filha a segurar-lhe a mão.

Comentário
 

O presente caso nos traz uma situação edipiana (o apaixonamento inconsciente de uma criança pelo genitor do sexo oposto), não resolvida ao surgir, na infância, e por isto revivida na adolescência com o reforço próprio do amadurecimento sexual. O transe hipnótico funcionou com sua particular virtude de permitir o acesso terapêutico ao problema (conflito psicológico recalcado), sem que o paciente tenha de dar-se conta daquilo que lhe está oculto pela amnésia, ou seja, sem ter de conscientizar aquilo que, no momento, ainda poderia ser sentido como ameaçador para sua integridade psíquica. Deveras, a hostilidade não abrangia somente o pai mas a família inteira, em particular a mãe, que não via com bons olhos, nem entendia, o comportamento “ irracional” da filha. Na psicanálise clássica, e em várias outras formas de psicoterapia, também é comum ver-se a resolução de sintomas sem o conhecimento específico daquilo que poderia tê-los originado.
Importantíssimo, o sonho: “a estrada real do inconsciente”, segundo Freud. Com representações simbólicas muito adequadas, o que testemunha a boa capacidade intelectual e afetiva da jovem, o sonho lhe propõe um como que itinerário pelo qual chegaria àquilo, que no fundo, certamente desejava, pois, na verdade, como filha, possuía as condições legítimas de receber, depois de elaboração psicológica mais amadurecida, o “pão” ou seja, o pai, o primeiro homem que conheceu desde criança, e que a mãe estava disposta a entregar-lhe de modo adulto, saudável. Convém relembrar o que os primeiros clientes de Freud, após retornarem à normalidade do dia a dia, graças ao tratamento com ele, lhe testemunharam: que – no meio das fantasmagorias patológicas que presenciavam, “lá num cantinho dalma”, como um observador não participante, estava uma pessoa normal. É para esta que o esforço de toda psicoterapia se orienta.

A situação atual emergente é séria, contendo um problema de não pouca monta. O supermercado do sonho pode ser a imagem que simboliza a amplidão das realidades da vida à frente dessa jovem em seu itinerário rumo à idade adulta. Foi abordado um episódio bem definido de desajuste psicológico, um fato entre os muitos, de diferentes aspectos, que constituíam sua realidade vivida no momento da psicoterapia. A resolução do mal-estar crucial do momento é, também, lição para o futuro: a de que outras formas de descompassos análogos que, porventura, se manifestem ao longo dos anos, possam ser encaradas e encontrar solução.



Malomar Lund Edelweiss

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